agosto 17, 2004

Al-Gharb (5)

Nos textos anteriores sobre o tema Al-Gharb poderá ter ficado a ideia que a finalidade dos mesmos era a critica destrutiva e gratuita ao Al-Gharb. Nada de mais errado. Não sou algarvio mas tenho uma forte ligação ao Algarve por a família da minha mulher ser desta região e lá ir periodicamente. Apenas extravasei o meu sentimento de angustia, de revolta e de impotência perante o estado desta região. Dói-me ver um local que poderia ser transformado num paraíso – acessível ao português economicamente médio - caminhar para a degradação, apenas matizada por alguns óasis, mas esses, toda a gente sabe, são coutada de multimilionários.

Alguns dos dramas que já se vivem no Algarve, em resultado dos atentados ao ambiente, de gestões deficientes e não só - outros, talvez ainda mais graves, estão para vir - devem-se essencialmente à ganância de lucros rápidos e chorudos e à irresponsavel mentalidade do Homem, mais virado para o fácil e imediato, tão ao estilo do tipico “desenrasca-se agora e depois logo se vê”, avesso à planificação fundamentada e investimentos profissionais sérios a médio e longo prazo, aliado ao espírito individualista do “cada um que se safe e o resto que se lixe e o último a sair que apague a luz”.

Infelizmente, este tipo de mentalidade está longe de ser exclusivo do Algarve, antes me parece ser característica muito comum dos portugueses, de norte a sul. Já agora, uma das questões que me deixa perplexo é a seguinte: as qualidades do trabalhador português são enaltecidas no estrangeiro e estão no topo das preferencias estrangeiras, no entanto o inverso passa-se a nível interno e, dizem as estatísticas, o nosso índice de produtividade é muito baixo quando comparado com a média europeia. Talvez a resposta para essa contradição, ainda que ninguém o queira reconhecer, não esteja tanto nos trabalhadores mas mais na deficiente organização do trabalho e nos desmotivadores e magros salários praticados em Portugal. Também penso que outro aspecto muito importante na base da falta de competitividade da economia nacional diz respeito à falta de preparação e visão de negócio dos nossos empresários/gestores, mas esse é um assunto que não quero agora abordar.

Voltando à questão da mentalidade e maneira de estar na vida que fazem com que o nosso desenvolvimento económico e cultural pouco tenha evoluído nas últimas décadas, pelo menos em comparação com os nossos vizinhos europeus e, sem querer ir mais longe, com nuestros hermanos, cito um exemplo muito elucidativo:
Há quase vinte anos, a pesca algarvia sofreu algumas restrições, devido à nossa entrada na CEE (era assim que chamava na altura), levando a que muitas famílias ficassem sem o ganha pão. Mas algo semelhante aconteceu aos nossos vizinhos espanhóis. No entanto, a abordagem ao problema foi completamente diferente dos dois lados da fronteira. Enquanto em Portugal as populações ficaram a chorar, clamando pela solidariedade nacional e por subsídios à inactividade, os espanhóis arregaçaram as mangas e reconverteram a actividade profissional. Dedicaram-se, nomeadamente, ao cultivo do morango. Em poucos anos tornaram-se no maior produtor europeu de morangos e actualmente é impressionante a quantidade de camiões que, em tempo de apanha do morango, atravessa diariamente as fronteiras espanholas para colocar o fruto nos mercados europeus. Convém referir que, em Espanha, ao contrário do que por cá acontece, a apoiar uma agricultura desenvolvida estão associações de produtores bem organizadas que executam a recolha, tratamento, embalagem e escoamento dos morangos. Um exemplo a merecer atenção por parte dos nossos agricultores.

Contudo, os problemas estruturais do turismo algarvio são vários, a que a recente debilidade económica dos turistas ajudou a agravar. Mas há situações, como esta que o João Pereira aflora, que ultrapassam a vertente económica e que não são tão pontuais como parecem. Por outro lado, a aguerrida concorrência do outro lado da fronteira (Islantilla ou Matalascañas, por exemplo), a poucos quilómetros de Portugal, já começa a provocar algum estrago em terras de Al-Gharb.
Penso que todas as questões associadas ao turismo deveriam merecer uma profunda reflexão, por parte dos industriais, comerciantes e autoridades locais.
A continuar assim, o Al-Gharb, arrisca-se a posicionar-se, tal como Portugal dentro UE (UE dos quinze), na cauda do turismo europeu.

Publicado por vmar em agosto 17, 2004 06:06 PM
Comentários

Pouco a pouco a «normalidade» regresssa à blogesfera, este lugar onde ainda são possíveis os desabafos, e a partilha de ideias, opiniões, experiências, etc... o que é gratificante, apesar das poucas perspectivas de ter qualquer efeito prático, ou contribuir para qualquer mudança, até mesmo de mentalidade; eu sou daqueles que gostaria de não me ficar pela conversa, mas também não entro em «grupos» pelos lindos olhos de quem quer que seja. Isto não vem a propósito de nada; a intenção passava por dar sinal de vida, se estas palavras servirem para isso, então não foram em vão.
O Al-Gharb é o espelho da ganância, da intrujice e da sabujice política em Portugal, de gente que sempre se julgou acima da lei e contou com a apatia plebeia para poder encher o bolso; esta mentalidade impediu o país de implementar projectos de desenvolvimento sustentável, os quais, a medio, longo prazo compensariam o esforço que a nação tivesse que fazer; mas não, as prioridades não passavam por aí.
Será que a classe política deste país alguma vez ousou pensar (as excepções devem ser raras) sequer em sentar-se a uma mesma mesa e debater as necessidades do país, e com humildade, cada um expor a sua opinião acerca do ordenamento do território (tendo por base estudos criteriosos feitos por gente a sério) tendo em conta a necessidade do país ter um modelo de desenvolvimento a longo prazo, digamos com vistas para o futuro e não para o umbigo de uns quantos oportunistas, que tem o desplante de considerar-se patriotas!
O País continua a saque e com toda a sinceridade não vejo vontade política para mudar de rumo, «botar remendos», sim, e entreter o povo com promessas sem fundamento, também...
O doente (o país) não está a recuperar e a onda de patriotismo optimista que engalanou o país e levou a nação a vestir a camisola das esquinas da ignorância revitalizada, desfez-se em pó, cinzas e nada...

Um abraço
Rodrigo Ribeiro

Afixado por: Rodrigo Ribeiro em agosto 18, 2004 04:09 PM